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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

Telefone Laranja para os Direitos Humanos

São muitas as pessoas que ainda se sentem inspiradas pelo discurso de Martin Luther King a 28.8.1963 – I have a dream – e menos as que se sentem inspiradas pela abertura da ligação directa entre os EUA e a URSS 48 horas depois. Apelidada de “telefone vermelho” terá sido fundamental na redução dos riscos de uma guerra (nuclear). Dois dias e dois acontecimentos muito distintos que mudaram o Mundo no sentido de mais Direitos Humanos.

Em parte significativa dos quase 50 anos que distam desses momentos, o Mundo fez progressos notáveis, verificando-se melhorias progressivas até há poucos anos, momento a partir do qual a COVID-19 e o recrudescimento do autoritarismo nos demonstraram que não existe irreversibilidade no progresso e que algo que podemos dar por garantido pode ser questionado. Como nos mostrou, com incredulidade e brutalidade, a guerra na Ucrânia.

“Telefone Laranja para os Direitos Humanos”, 28º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta constatação para discutir a necessidade de não darmos a Paz por adquirida, antes sempre em co-construção como defendi nesta rubrica a 30.12.2021, para pensar como um conjunto de acontecimentos (crise socioeconómica, incêndios rurais de 2017, COVID-19, agora uma absurda Guerra) somam(ar) imprevisibilidade, incerteza e insegurança à imprevisibilidade, incerteza, insegurança colocando em risco a saúde psicológica e o bem-estar de todas e todos e criando o que penso podermos nomear enquanto uma sindemia, ou seja a conjugação de problemas de saúde, neste caso saúde psicológica, e o seu cruzamento com problemas sociais e económicos, aprofundando-os, perpetuando-os e criando vulnerabilidades e adversidades nas pessoas ao redor, incluindo crianças/jovens.

No artigo convido a pensarmos se assim é em Portugal como será na Ucrânia e com o povo ucraniano. Vidas interrompidas, relações coartadas, migração forçada. Trauma. Se em Portugal é fundamental recuperar as pessoas para recuperar o país e o projectar para o futuro depois de crises sucessivas, mais assim é com as Ucranianas e Ucranianos. Recuperação, reparação, reconciliação. Garantir a tal linha directa, um telefone laranja, para com os Direitos Humanos.

Vivemos dias de pesadelo que necessitam de um sonho que se concretize numa realidade inspiradora. De um sonho que se concretize na criação de espaço de pacificação e Paz; de progresso em indicadores fundamentais à autodeterminação das pessoas, à equidade, à coesão social e à possibilidade de bem-estar de todas e todos; na inviabilização de espaço de complacência com tudo quanto interfira com direitos fundamentais e de neutralidade em disputas ou matérias de violação de direitos humanos. De um sonho que se concretize na projecção de um futuro de Direitos Humanos globais.

Que Portugal possa para tal contribuir e nisso ser exemplo. É este o (seu) momento.

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