No tempo incerto que vivemos, entramos no Verão de 2021 no 15º mês de uma complexa e duradoura pandemia e com o Campeonato Europeu de Futebol de 2020 (!) a decorrer. Competição atomizada por 11 cidades europeias e marcada por improváveis restrições e por cada vez menos improváveis, mas nem por isso menos inquietantes, posições do organismo que a organiza em torno de assuntos que remetem para direitos, liberdades e equidade. Ainda assim, como em qualquer grande competição internacional de equipas, é bastante provável que no próximo 11 de Julho a selecção vencedora comemore a vitória ao som do “We are the champions”, música composta por Freddie Mercury para funcionar como “um jogo de diálogo” entre os seus Queen no palco e os “nós” na plateia.
Este diálogo (nós com outras ou outros), também pela sua dimensão simbólica, é uma poderosa ferramenta e um traço distintivo dos seres humanos. Foi-o para o homo neanderthalensis (Neondertal) há dezenas de milhares de anos que, mesmo em condições de sobrevivência exigentes, desenvolvia rituais sociais diversos e até fúnebres (por exemplo enterrando corpos em posição fetal), demonstrando uma vantagem evolutiva fundamental – a consciência de si aliada à capacidade de imaginar, celebrar e eternizar-se enquanto ser de uma comunidade (social), portanto mais capaz de lidar com os imensos obstáculos e sacrifícios que enfrentava no seu dia-a-dia, pela possibilidade de poder projectar-se no futuro e aspirar a um amanhã diferente lhe conferir significado e propósito ao tempo presente.
Como o foi há dezenas de milhares de anos, é-o hoje num tempo em que as relações e os vínculos que estabelecemos são um factor importantíssimo na possibilidade de bem-estar, no desenvolvimento de competências e da resiliência e na capacidade de nos adaptarmos à adversidade e aos acontecimentos de vida. Como o foi há dezenas de milhares de anos e é-o hoje, sê-lo-á no futuro porque por mais que os avanços na inteligência artificial possam aspirar aproximar-se da possibilidade de “copiar” a rede neuronal humana (no limite, o cérebro humano), será muito mais complexo traduzir artificialmente o que resulta da interacção e comunicação (da linguagem e do simbólico) entre duas ou mais pessoas e essa apaixonante triangulação humana entre emoção, cognição e comportamento. Será muito mais complexo (re)criar esse diálogo entre estruturas artificialmente construídas e (re)produzir o efeito de uma relação como uma relação de amizade na qual “podemos confiar”, conforme também Freddie Mercury nos sugeriu quando há precisamente 35 anos cantou pela primeira vez a música “Friends will be friends”.
Além do seu papel no bem-estar e na capacidade de adaptação aos acontecimentos de vida, as relações e as amizades, no presente e para o futuro, são decisivas noutros aspectos fundamentais da vida em sociedade. Observemos dois exemplos com bastante actualidade.
O equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional e a forma como, mesmo tendo alguns trabalhadores, trabalhadoras e organizações observado e experimentado benefícios do teletrabalho, existindo condições para o mesmo, ele tenderá a ser sempre balanceado com tempos e períodos de trabalho presencial. Isto, considerando não apenas a importância do alinhamento de valores e princípios entre a organização e as suas trabalhadoras e trabalhadores, mas também e particularmente a importância das relações que se estabelecem no sentido de pertença, bem-estar e produtividade e o facto dos contextos de trabalho serem contextos por excelência de socialização na idade adulta.
A prevenção da desconfiança e do tribalismo que decorre da polarização da sociedade e da forma como se cria, partilha e dissemina (des)informação, considerando que mitigar esta polarização depende da criação de espaços de relação e compromisso entre polos mais do que da apresentação de factos e de informação, normalmente subvertida e contraposta por outros dados e outra (des)informação. Mais, porque os grupos, particularmente quando com fins sociais ou políticos exploram o medo e promovem a desconfiança, o combate a estes fenómenos deve assentar na sua compreensão e na adopção de uma postura contrária à desumanização das pessoas que os constituem, procurando espaços de relação com elas, criando as importantes penumbras sociais que em artigo anterior nesta rúbrica referi. Conforme Troy Campbell tão bem afirma, “uma das formas mais poderosas de inocular as pessoas da informação falsa é ser amiga/o delas”, criando espaços de comunicação e de confiança que funcionando como “campos electromagnéticos” potenciam órbitas que limitam o afastamento e previnem a polarização, mesmo quando não se concorda e se diverge em crenças, opiniões, gostos ou experiências.
Tendo este peso e esta importância, creio não podermos ficar indiferentes a alguns reveladores dados recolhidos pelo Estudo dos Valores Europeus 2017-2020. Apresentado há dias em Portugal, demonstra que os portugueses e as portuguesas têm valores muito baixos de confiança interpessoal, dos mais baixos quando comparados com os restantes países europeus, algo que segundo o relatório do estudo revela “a sua convicção de que o capital cívico da sociedade [portuguesa] é baixo” e se assume como um “obstáculo à cooperação”. Menos de 1 em cada 5 portuguesas e portugueses (17%) respondem poder confiar-se à pergunta “De uma forma geral, acha que se pode confiar na maioria das pessoas ou, pelo contrário, acha que todo o cuidado é pouco?”, valor consideravelmente abaixo da média dos países europeus e que corresponde a cerca de metade da percentagem de população de Espanha e entre um terço e um quarto da população dos países normalmente apelidados de nórdicos. Dados e comparativo que ilustram bem a premência de investirmos nas relações e de promovermos a confiança interpessoal em Portugal, com benefício para todas e todos.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, com um futuro pautado pela incerteza e pela volatilidade, importa intencionalizarmos e ritualizarmos as relações e a amizade. Importa sermos amigas e amigos e nisso investirmos. Importa permitir e até reforçar quem investe em ser nossa amiga ou amigo. Importa, pela relação e pela confiança das amigas e amigos, reforçarmos o diálogo entre nós e as outras e os outros, promovendo a empatia e exponenciando a nossa possibilidade de bem-estar e as redes de cooperação nas comunidades e na sociedade. A música “Friends will be friends” foi e é um dos singles do álbum “A kind of magic”. Permitamos que a amizade faça magia e que, todas e todos em conjunto com a sociedade, beneficiemos do seu imenso valor.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 29.06.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-valor-da-amizade